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Ah, pois é.

Gabrieli de Cinque22:05

É sexta-feira. Hoje ele não deu as caras e você ficou sem saber como fazer com aquele dia. São quase dez. É ele telefonando pra você, a garota angustiada. Você sabe quem é pelo alarme personalizado. Adora a música, lembra ele e aquele primeiro dia. Prepara o timbre sonolento de desdém. Ele quer resolver a situação. Gosta das coisas bem certinhas. Ele pressiona. Você reage. Falando sério, você andava angustiada, mas solta um confusa. Você age de modo vago, ríspido e meio sem rumo, cheia de rimas desencontradas.

Ele desliga, que moço intempestivo. Os minutos passam e você não dá o menor sinal de vida ou 
remorso. Oito minutos depois, Chris Martin se pronuncia outra vez. Você pensa em jogar o aparelho
pelo céu escuro da varanda, mas até que gosta do órgão introduzindo a canção. Finge não saber quem 
fala. É ele. O moço agora despeja seus sonhos interrompidos e tudo aquilo que você não quer ouvir. 
Que você não aprendeu nada. Que uma forma de amar que deu errado uma vez pode funcionar 
com outra pessoa, não existe amor errado. Que amor errado é amor não vivido, e se não foi vivido então não foi 
amor.

Bobagem. Imbecil. Desliga o telefone na cara do babaca, derretendo a última certeza de haver um príncipe 
encantado fora das telas do cinema. Ai, que ódio. Sente raiva e espera uma nova ligação. E espera. Outra 
meia-hora. E espera mais um pouco. Ele não liga e você fica triste. Mas vai atrás da sua alegria. A 
sexta-feira morreu e as horas atravessaram muitas ruas. Tudo ficou pra trás. Sua amiga diz que você tá 
irritantemente calada e resolve o problema com mais um ou dois drinques. É sexta-feira, menina de deus. 
Ânimo.

Ele tem uma cara de nojento e nome de artista internacional, mas vai logo encostando e pergunta seu nome. 

Você já adianta que sofre de baixa tolerância a papo furado. Sim, tá sozinha e mostra no braço a vacina contra 
cantadas idiotas. O babaca em nada se parece com ele, não é tímido. Mas você não precisa fazer biquinho 
e falar comportada, até pode às vezes arrotar drinques e sentimentos desconexos. Ele nem liga. E você fica feliz 
porque até que enfim alguém te escuta. Ele pode se tornar um super amigo, por que não? É, você dá pra ele.

O domingo nasce abortado e você manda a real. Deu pra ele. Ele quem? Não interessa, você não sabe dizer ao 
certo. É um nome não muito comum, mas não é isso que vem ao caso. O caso que, olha só, você quer explicar.
Oi? Ele não quer mais saber. Bate a ligação na sua cara irônica do outro lado. Quem não aprendeu nada aqui? 
Quem sabe tudo sobre amor e não consegue vencer essa etapa? O amor, se existe, é tácito e imperfeito. 
Você sempre soube. Você é quem sabe. Ele não sabe de nada, tampouco o que vai perder. Otário, não sabe se 
jogar pra vida. E dá de ombros. Azar o dele.

Caminhando na calçada, um dia, ele comentou de um filme, como quem não queria assistir contigo mesmo. 
As tardes mortas agora se locomovem vagarosamente, em câmera lenta, tipo no tal filme esse. Ele não telefona.
Mas por que você não liga? Porque tem as mãos atulhadas de fotos, não pode perder os detalhes que morrem 
em cada início de outono. O dente da frente que brilhava no escuro. O tênis verde musgo. Quando ele brincava 
de se enforcar com seus cabelos. Os conselhos. Ah, pois é.

Pra ninguém, você pergunta se ele também pensa em você. Sem resposta, mas claro que sim. Com sombras 
de dúvida. Ninguém apaga tudo assim. Ele também ouve "Fix You" com o olhar triste no céu escuro da varanda. 
Claro que ouve. Aí você começa a desconfiar que ele poderia ter sido o cara legal da sua vida. Isso, se você 
sentisse a mesma paixão, se você conseguisse entregar sua alma tanto quanto, se você soubesse amar ele do 
mesmo jeito e intensidade que ama a falta que agora ele te faz.


Gabito Nunes

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