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Não sou mulher de rosas (Gabito Nunes)

Gabrieli de Cinque17:55


"Não ache que consegue me abrir, me comover, me prender com apenas três palavras. Não quero ler ou saber que você me ama. Quero sentir isso. Quero tomar banho com você, ser olhada com ternura, que você se confesse entre meu pescoço e meus seios. Peça meu colo, abra minhas pernas, penetre seu carinho, me cante, se importe comigo, ejacule seu querer sobre mim, escute meus medos, enrole minha franja, persiga meu gozar. Não perca a chance, não deixe pro dia seguinte. Não existo amanhã. Eu só existo dentro dos seus olhos, da sua boca, dos seus braços, na ponta dos seus dedos. Esqueça tudo que leu e ouviu sobre mim. O tempo que demora pra me fazer um texto é o suficiente pra derramá-lo sobre mim. Não me descreva, não me entenda, não diga me amar. Me ame apenas. O corpo é a única prova de amor."


A sinopse do livro (texto acima) nos faz pensar muito no que consiste a história. Não é apenas uma história cheia de sexo e sentimentos à flor da pele. Existe muito mais que isso como fins de relacionamentos, encontros, reencontros, saudades e choros. Gabito se transveste de inúmeros personagens tornando-se até mulheres. São homens sentimentais e também homens mais "brutais" e ligados ao sexo, da mesma forma que existe aquela mulher com espírito de menininha e chora no banco do metrô com medo de ser deixada e aquela mulher que apenas quer ser levada à cama sem nenhum "eu te amo".


Gabito Nunes é um escritor lançado na internet, em seu próprio site. Em pouco tempo  se impôs como um dos autores de mais empatia da web, consequentemente um dos mais lidos. Seu site recebe cerca de 50 mil visitas ao Mês. Publicou A manhã seguinte sempre chega (Ed. Leitura, 2010), um livro de ensaios de amor e o digital O tudo que sobrou: crônicas sobre amor e perda (2011, independente), nos quais o autor fotografa mentalmente o cotidiano afetivo. Num peculiar estilo tragicômico sem compromisso com o erudito, traz retratos poderosos do amor e derivados. Leitores de Jack Kerouac, Woody Allen, Nick Hornby, Charles Bukowski (com sua frase linda acima e que provavelmente inspirou no manifesto do autor, titulado de Mulheres), John Fante, Milan Kundera, Caio Fernando Abreu e Alain de Botton. Ouvinte de Beatles, Cazuza, Beck, Los Hermanos, Radiohead e João Gilberto (Que tal fazer uma playlist deles para ouvir enquanto lê o livro?). Descrição retirada do próprio livros.

♥ Os Capítulos são divididos lindamente e que combinam demais com o título do livro. Como muitas (ou todas, não sei), crônicas já foram postadas na internet resolvi colocar os títulos para que vocês possam ler as que tiverem interesse ou comprarem o livro ♥ que custa apenas R$19,90 no site da Livraria Cultura (compre pelo nosso ícone aqui do lado, tá?!).


♥ A única prova de amor                                         ♥ A bela e o feio
♥ O amor mais bonito                                              ♥ Mixtape (clichê romântico)
♥ Vai por mim                                                        ♥  Outros 500 dias (com ela)
♥ Botas batidas                                                      ♥ Bossa velha
♥ Doce entrega                                                      ♥ Me ame antes de saber meu nome


♥ Reconciliação                                                                  ♥ Pra já
♥ A arte de acudir o ciúme                                                  ♥ Me odeia e faz cena
♥ Uma mulher e seus cães turistas de carona                         ♥ Amor inventado
Apego                                                                            ♥ Caso de emergência
♥ Contraste


♥ Diário de uma princesa (páginas rasgadas)                            ♥ Ninguém muda
♥ De tango com Deus                                                            ♥ Um gesto qualquer
♥ Romance em pó                                                                 ♥ Enfim, satisfeita
♥ Traí, simplesmente                                                             ♥ Lençol
♥ Eu te ligo


♥ Vem calar a minha boca                                             ♥Cogumelos mofados
♥ O príncipe chato                                                       ♥ Telefone sem fio
♥ Ciúme platônico                                                        ♥ Ah, pois é
♥ Mau passado                                                            ♥ Vai embora
♥ Não vem com romance


♥ Você não se quebrou                                     ♥ Calma, ele vai te encontrar
♥ Ficaí                                                            ♥ Arquipélago
♥ A garota que precisava muito dar                    ♥ Agosto amargo
♥ Pergunte ao guarda-pó                                   ♥ Nenhum dia é igual
♥ Conexão Arroio do Sal/Londres


♥ Lógica feminina                                                               ♥ Lá vamos nós
♥ Nem vem que não tem                                                      ♥ Belo e maldito
♥ Entre aspas                                                                      ♥ O dublê
♥ A mulher feliz que amava seu marido                                  ♥ Coisa de momento
♥ O quarto homem


♥ Paixão é coisa que acontece                     ♥ Comentários sobre a bunda da miss Rivotril
♥ Lugar comum                                         ♥ Era uma vez
♥ Choque térmico                                       ♥ Interrupção
♥ Porque o amor está fora de moda              ♥ A obviedade do amor
♥ Você e sua vida perfeita


♥ Tudo que eu queria te dizer                                      ♥ Sai de mim
♥ Amanda, 1983                                                        ♥ Autópsia
♥ Os fantasmas da minha garganta                               ♥ O especial do Roberto Carlos
♥ Depois que você me forçou a pintar a parede              ♥ Dez segundos
♥ Outro lugar


♥ Saber amar                                                             ♥ Você vai voltar
♥ Um anjo safado                                                       ♥ Guarda-chuva
♥ Casais inteligentes remexem os quadris juntos             ♥ Adulterados
♥ Das coisas sem nome                                               ♥ Não quero perder nada
♥ Fala comigo                                                            ♥ Só alguém como você


O livro que é da Editora Leitura (por que não respondem meu e-mail? )': ) tem 197 páginas totalmente envolventes e que te deixam com gostinho de quero mais a cada história. As páginas são brancas e simples, mas o suficiente. O título é marcado por uma linha e um um tom mais escuro, já a primeira frase é um cinza bem claro e em letras maiúsculas para destacar (esqueci de fotografar). Como disse Marcello WS "Ler Não sou mulher de rosas é uma excursão à crueza da contradição feminina, onde o protagonista é o leitor, e o enredo, tudo o que foram impedidas de dizer sobre amor -  por escassez de tempo, palavras, coragem ou indecisão."

E para terminar com chave de ouro resolvi deixar no final do post (vai ficar bem longo, me desculpem) o texto que deu título ao livro, que é o "A obviedade do amor". Espero que tenham gostado da resenha, que queiram (muito) ler o livro e que deixem um comentário logo abaixo.

♥ A obviedade do amor


Não sou mulher de rosas. Já disse de saída, no primeiro encontro, nem recordo a razão. Mas disse, naquele meu velho estilo metralhador de moços com olhos de promessa. Sei que disse, com meus reflexos ariscos de cão sem dono sempre buscando receosa a moeda de troca para qualquer elogio, a vigésima quarta intenção por trás de um rosto abandonado. Eu não queria ser mais uma na sua cama, por isso disse não gostar de rosas, tampouco das vermelhas, pra me afastar da obviedade do amor. Não sabia como, mas queria que você me notasse diferente de todas as outras.

E quando chegou o menino, com um chinelo de dedo verde e o outro pé com cor divergente e a tira desgastada, por entre as mesas cheias de casais que há tempos conjugavam suas relações com pronomes plurais e fofinhos, agarrado no balde vermelho transbordando rosas apaixonadas, bem, eu tremi as mãos e descobri o quanto era difícil engolir um escalope de alcatra, mesmo ao molho de vinho tinto.

E o menino pra você "esta linda morena não merece rosas vermelhas?". E você pro menino "não, obrigado". E levando mais um garfaço de escalope à boca, que bem podia perder o rumo e perfurar sua garganta, vai que por ali esguichasse alguma sensibilidade. E enquanto você sorria irônico dizendo "que bom que você não é mulher de rosas porque eu não desembolsaria cinco reais num troço que morrerá amanhã", eu só pensava que sua resposta correta pro menino sujinho com olhos bolivianos e famintos seria "sim, ela merece rosas, todas as rosas de todos os jardins botânicos da face terrestre, mas não, obrigado". Mas poderia ter sido pior, você poderia ter perguntado se o bolivianinho tinha fome, coisa que traria uma certeza obsessiva de que meu filho deveria nascer com sua barba cerrada recheando a covinha do queixo de qualquer maneira.

Clichês de amor são como venenos pra minha ingenuidade. Taí meu motivo de desconversar sobre rosas vermelhas, não importa se custam cinco ou mil reais ou morrem amanhã ou nunca mais. Rosas ou qualquer outra porra de amor, um livro, uma ligação, uma música, uma metáfora que o fizesse lembrar de mim ao menos concretariam meu chão, que quanto mais escorregadio, mais irresistível ficava grudar em você. Amar é um pouco fingir, por isso fiz tanta questão de dizer que sua mão sufocava a minha ou que não fazia seu tipo de mulher ou que não tava nem aí se você subisse pra um café na cama.

Mesmo assim, hoje senti uma puta falta sua, da sua pontualidade física, de todo bem que aquele maldito furinho no queixo me faz quando chegam juntos os fios de dois ou três dias. Eu não sei se rosas vermelhas ou qualquer metáfora que leio em livros-mulherzinha podem resumir o amor, mas quando penso em amor, vejo que ele deve ser transformador. Depois de você, eu mudei, isso é fato e como aconteceu ou quanto durou, não importa. Você pode seguir do outro lado da cidade sem me ligar e eu ficar aqui, arrastando o sofá até a porta pra que você não possa voltar. Mas agora tanto faz, as rosas morrem mesmo sem dedicar cinco reais ou sua vida inteira.

A grande ironia disso tudo é que continuo tentando pensar no amor como metáforas cheias de flores ou ausentes delas, lendo filósofos e poetas capazes de defini-los. Bem ou mal, eu vivo com ou sem você, mas o grande inconveniente é que o amor não pode ser medido sem os assobios irritantes enquanto você fazia xixi de porta aberta ou ficava horas fazendo coisas no seu maldito computador, ouvindo Morrissey ou Marvin Gaye. Se você vai, o amor vai junto e tudo volta a ser como era antes. Com ou sem rosas vermelhas, a presença é a obviedade do amor.


Bisou!

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2 comentários

  1. tu tem o download do livro? ):

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  2. Não :( mas acho que todos os contos já estão pela internet, ai se você estiver com muita disposição de ler pode procurar um por um :( me desculpe!

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