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"Ninguém tem que ter a minha senha" (Clarissa Corrêa)

Gabrieli de Cinque12:45


Já estava tarde, algo em torno de duas e tanto da manhã. Ela acordou meio desorientada e o procurou na cama. Levantou e foi devagarinho até a sala. Encontrou o namorado concentrado e pensou “coitado, trabalhando até essa hora”. Quando chegou mais perto, ele fechou a janelinha do “gtalk”. Com quem você está falando? E olhou rapidamente para a tela. O nome estava lá, minimizado: Camila. Quem é Camila?, ela perguntou. Uma amiga, ele respondeu. Deixa eu ver essa conversa agora. Não. Eu achando que você estava trabalhando e você aí de papo com a tal Camila na madrugada. Se não me mostrar essa conversa agora eu vou achar que tem coisa, afinal, você fechou a janelinha quando percebeu a minha presença. E assim começou o embate. E assim ficaram discutindo até o amanhecer. Ele se defendeu, disse que já estava se despedindo da moça e que não iria mostrar nada. Ela continuou com a pulga atrás das duas orelhas.

Essa cena lhe parece familiar? Quantas e quantas vezes acontecem crises de ciúme e insegurança por conta de terceiros, quartos e quintos? Quantas vezes você pede uma prova de que o outro está mesmo sendo verdadeiro e não está andando fora da linha?

Analisando a situação acima, acho que ele podia ter mostrado, sim, a conversa. Assim, ela ficaria mais aliviada (ou não). Essa ação de tentar esconder causa insegurança no outro. E uma desconfiança que talvez nem precisasse existir. As pessoas precisam se sentir confiantes, seguras, precisam saber onde estão pisando. Todo mundo quer dar um passo em terra firme, não em lama.

Um amigo, depois da insistência da mulher, deu a senha do e-mail para ela. Resultado: criou outro e-mail para se sentir mais à vontade. Não, ele não apronta. Ele quer apenas se sentir livre, quer poder ser ele mesmo sem medir palavras. É que as palavras têm um poder muito grande. Às vezes, um “estou com saudade” dito para uma pessoa do sexo oposto pode soar como um flerte ou algo do gênero.

Sou a favor da honestidade em qualquer tipo de relacionamento. Mas também sou a favor da privacidade. Há como ter privacidade e ser honesto? Claro que sim. Meu marido não tem e nunca teve a senha do meu e-mail, muito menos de Twitter ou Facebook. Quando ele se aproxima, não corro para fechar as janelinhas, o deixo ler ou ver o que estou fazendo tranquilamente, afinal, nada tenho a esconder. Uma relação precisa ser baseada na confiança, não adianta você desconfiar de cada passo, cada troca de e-mail ou mensagem, cada piscada de olho, cada respiração, senão a vida a dois vira um inferno.

Uma pessoa próxima a mim esses dias entrou no Facebook do namorado. Perguntei por qual motivo ela tinha a senha, sabe o que ouvi? Ora, ele tem a minha, então eu tenho a dele. Acabou o limite, espaço, individualidade. Veja bem: não dar as senhas não quer dizer que você esteja fazendo ou pretenda fazer algo errado. Ninguém tem a minha senha do banco, por exemplo. Nem dos meus cartões de crédito. É a minha vida, são meus, ninguém precisa saber. O mesmo vale para senhas de redes sociais e e-mails. É a sua vida, seus assuntos, seus compromissos, suas trocas. Ninguém tem que se meter, verificar, checar, tomar conhecimento. É seu, só seu. Não entendo essa necessidade que alguns têm de ficar totalmente a par da vida do outro.

Quando eu era pequena, meus pais me explicavam o certo e o errado. Diziam o que era legal e o que não era. Mas me deixavam tomar as decisões, afinal, era a minha vida. É bom poder fazer as próprias escolhas, mesmo que elas sejam erradas. Eles nunca invadiam o meu espaço. Cresci assim, livre. Por isso, não permito que ninguém passe dos limites.

Clarissa Corrêa, redatora publicitária e autora de "Para todos os amores errados" (Ed. Gutenberg), para Revista TPM.

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