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"O Grande Progresso"

Gabrieli de Cinque18:00

 
    Ela segura o lápis entre o indicador e o dedo do meio, balançando devagar como se praticasse o velho truque de mágica de fazer o lápis entortar. Seu cabelo castanho claro de caixa de tintas de farmácia está preso num coque meio caído, bagunçado, que a faz ser mais sexy do que já é. E acredite, é quase impossível isso.
    Ontem meu amigo Augusto me ligou no meio da noite.
    - CARA! ACORDA! – não era preciso encostar o aparelho no ouvido para escutar sua voz irregular prejudicada pela puberdade, berrando.
    Faço um som indefinido, ainda preso no sono, para que Augusto percebesse que, na medida do possível que às três e meia da madrugada permite, eu estava acordado.
    -Você nem sabe quem mudou o status de relacionamento!
    -Quem? – coço os olhos grudados de remela e bocejo.
    -Tam ram ram ram – ele faz mistério. Infantil do caralho, penso, com raiva, considerando a doce ideia de desligar o telefone na cara dele.
    -Fala logo, porra – digo impaciente.
    -Nossa, cara, tô fazendo isso porque te amo, você sabe – ele diz e dá risada, se divertindo por ter me acordado. Uma das regras que estabeleci para quem quer ser meu amigo é nunca me acordar.
    -Sério, fala. – murmuro.
    -A Clara – ele berra.
    Dou um pulo da cama, fico de pé, como se no meio da madrugada pudesse fazer algo. Minha visão escurece e fico um pouco tonto por levantar rápido demais, mas não há trem algum que me parasse ou me fizesse deitar naquele momento.
    Sabe quando você sente todas as suas entranhas saltando dentro do seu corpo como se quisessem voar pela sua boca e dar um passeio por aí? Eu sentia isso.
    Clara é a garota que sou apaixonado desde quando nasci.
    Ok, foi um pouco exagero, mas ela é realmente a garota.
    A garota mais linda, inteligente, gentil, sexy, bondosa, e todos os outros adjetivos positivos, que já conheci. Ela realmente é incrível. Realmente muito incrível. Realmente muito super incrível!
    E hoje estou sentado na fileira ao lado da dela, duas carteiras para trás, observando-a como sempre faço, só que mais atento em seus olhos.
    Não há indicio algum de lágrimas ou olhos inchados. Mas me sinto idiota por achar que a tristeza de uma garota estaria tão escrachada assim, para todos verem. Garotas são estranhas. Passam aqueles duzentos quilos de não sei o que no rosto e parecem que estão bem, saudáveis, felizes e coradas, mas por dentro, estão mau e cinzas, tristes e infelizes.
    Não entendo porque não gostam de demonstrar aquilo que realmente sentem. É como se quisessem parecer fortes e inabaláveis o tempo todo. Mas elas mesmas – as garotas – não percebem que são pequenas e frágeis, e que podem sim estar tristes e não se sentirem bem, porque são humanas, e todos nós temos momentos difíceis de lidar, todo mundo.
    E eu queria dizer isso a Clara. Que ela é humana e que pode ficar triste, chorar, e que se precisar de um ombro amigo eu tenho dois e que ela pode ir à minha casa se distrair, pois tenho um quarto só para mim...
    Balanço a cabeça espantando pensamentos inadequados que começavam a se arrastar para dentro de minha mente. Eu poderia ser tão sujo a esse ponto? Imaginar momentos eróticos com Clara enquanto ela está triste pelo termino de seu relacionamento?
    Eu tinha que levantar minha bunda ossuda dessa merda de cadeira e ir consola-la de qualquer forma, de qualquer jeito, idiota, desajeitado, gaguejante e estupido. Eu tinha que protegê-la.
    Clara deixa o lápis cair e por milagre ele rola até minha cadeira. Se existe um Deus, ele me ajudou.
    Ela se vira procurando o lápis e quando o vê ergue os olhos para solicitar docemente com o olhar que o ocupante da cadeira onde seu lápis estacionou o pegue para ela, por obséquio.
    Seus olhos cor de mel param encima dos meus e eu sinto minhas mãos formigarem. Sim, eu sou idiota. Mas eu realmente sinto coisas estranhas quando é relacionada a ela. Eu não me controlo. Eu piro nela.
    Abaixo, pego o lápis, tentando parecer o menos estupido possível, mas ele escapa de meus dedos pelo menos duas vezes até eu conseguir com as bochechas queimando o entregar para ela.
    -Obrigada – sua boca desenha as letras da palavra sensualmente, e ela pisca os olhos três vezes antes de se virar.
    Viro para frente tentando controlar a excitação. Essa é a terceira vez que ela fala comigo. E nossas mãos quase se tocaram. Não há sensação melhor. Um progresso. Um pregresso muito bem vindo. Bem agora que ela está livre e com toda certeza carente. Muuuuito carente.
    O sinal toca, anunciando o intervalo. Todos pulam de suas carteiras e correm como animais para o refeitório. Prometo a mim mesmo quando o intervalo acabar falar com ela. Dizer que ela é incrível. Muito incrível. Muito super incrível. E perguntar se ela gosta de Star Wars.

 – N. L. Resabinar.

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